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Endometriose: entendendo a dor que muitas vezes é ignorada

Matheus Fragata · agosto 6, 2026 · 4 min de leitura

Endometriose: entendendo a dor que muitas vezes é ignorada

“Cólica forte é normal, toda mulher sente.” Essa frase, repetida geração após geração, é responsável por atrasar o diagnóstico de milhares de mulheres com endometriose todos os anos. A dor que deveria ser um sinal de alerta acaba sendo normalizada, tratada como parte inevitável de ser mulher, quando na verdade pode ser sintoma de uma doença que, sem tratamento adequado, impacta profundamente a qualidade de vida e, em muitos casos, a fertilidade.

O que é a endometriose

A endometriose é uma doença caracterizada pelo crescimento de tecido semelhante ao endométrio, a camada que reveste internamente o útero, fora do local onde ele deveria estar. Esse tecido pode se instalar nos ovários, nas trompas, no intestino, na bexiga e em outras estruturas da região pélvica, respondendo aos hormônios do ciclo menstrual da mesma forma que o endométrio dentro do útero: cresce, descama e sangra a cada ciclo.

O problema é que, ao contrário do sangramento menstrual normal, que é eliminado pelo corpo através da menstruação, esse sangue não tem para onde ir quando ocorre fora do útero. Isso gera inflamação, dor e, com o tempo, a formação de aderências, tecido cicatricial que pode grudar órgãos entre si e causar dor crônica.

Por que o diagnóstico demora tanto

Em média, uma mulher com endometriose leva anos entre o início dos sintomas e o diagnóstico correto da doença. Esse atraso tem uma explicação cultural muito clara: a dor menstrual intensa foi, por muito tempo, tratada como algo esperado, e não como um sintoma que merece investigação.

Além disso, os sintomas da endometriose variam muito de mulher para mulher, o que dificulta ainda mais o reconhecimento precoce. Algumas mulheres sentem dor incapacitante, outras têm sintomas mais discretos, e há também casos de endometriose descobertos apenas durante investigação de infertilidade, sem que a paciente tivesse notado dor significativa antes.

Os sinais que diferenciam a endometriose de uma cólica comum

Nem toda cólica menstrual é sinal de endometriose, mas alguns padrões de dor merecem atenção redobrada:

  • Cólica menstrual muito intensa, que não melhora com analgésicos comuns e impede atividades do dia a dia
  • Dor pélvica que também aparece fora do período menstrual
  • Dor durante ou após a relação sexual
  • Dor ao evacuar ou urinar, especialmente durante a menstruação
  • Sangramento menstrual intenso ou irregular
  • Dificuldade para engravidar

A presença de um ou mais desses sinais, especialmente quando a dor interfere na rotina, no trabalho ou na vida social, é motivo suficiente para procurar avaliação ginecológica especializada.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico da endometriose geralmente começa com uma consulta detalhada sobre o histórico de sintomas, seguida de exame físico e exames de imagem, como ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal específico ou ressonância magnética com
preparo intestinal. que conseguem identificar focos da doença em boa parte dos casos. Em situações mais complexas, a videolaparoscopia, procedimento cirúrgico minimamente invasivo, pode ser necessária tanto para confirmar o diagnóstico quanto para tratar os focos da doença ao mesmo tempo.

Vale destacar que a intensidade da dor não é proporcional ao tamanho ou à extensão da endometriose. Já existem casos de doença extensa com sintomas discretos, e o contrário também acontece, com pequenos focos causando dor muito intensa.

As opções de tratamento disponíveis

Não existe um tratamento único para a endometriose: a escolha depende da intensidade dos sintomas, da extensão da doença, da idade da paciente e do desejo (ou não) de engravidar. As opções vão desde o controle hormonal, que reduz ou interrompe a menstruação e, com isso, controla o crescimento do tecido endometriótico, até o tratamento cirúrgico, indicado para casos mais avançados ou quando há impacto significativo na fertilidade.

Para mulheres que desejam engravidar e enfrentam dificuldade relacionada à endometriose, técnicas de reprodução assistida também podem ser recomendadas, dependendo do caso, muitas vezes em conjunto com o tratamento cirúrgico da doença.

O que fica de mensagem final

A dor não deveria ser tratada como parte normal e inevitável do ciclo menstrual. Se uma cólica está atrapalhando a rotina, se impede sair de casa, trabalhar, estudar ou viver normalmente durante alguns dias todo mês, esse é um sinal de que algo merece ser investigado, não ignorado. Buscar ajuda médica não é exagero, é cuidado. E quanto antes a endometriose for identificada, mais opções de tratamento estarão disponíveis, com melhores resultados a longo prazo.